29.12.09

Amanhã?

Amanhã, 07h00. Provavelmente o sol vai estar a nascer por essa altura, provavelmente estarei a fazer o check-in pela terceira vez. 48 horas de nervos, de tédio, de raiva, de pura esperança. Esperança? Há quatro meses que espero por levantar voo. Foram quatro meses a acordar e a riscar menos um dia no calendário. Quatro meses agarrada a algo que me fazia levantar da cama e a dar o que podia na Faculdade. Amanhã? Amanhã, se não conseguir voar, todos os riscos que vivi não serviram para nada. Amanhã, se não entrar no avião, nada valerá a pena no dia depois de amanhã. Tenho tudo preparado para estudar para os exames mas sim, está preparado, não quer dizer que toque em alguma coisa. A cabeça está na ilha, não aqui. Ainda não me mentalizei que poderei não ir. Qual é o sentido de algo que já não tem sentido?
Só quero estar com vocês no primeiro minuto de 2010.
Será que consigo voar, amanhã?

26.12.09

The same heart

Não sei porque lhe sugeri fazermos o trabalho em minha casa, estou a pôr a minha zona de conforto em descoberto. Ele. Podíamos ter ficado numa Biblioteca ou num Café mais calmo. Calmo... isso, acalma-te e finge que não sentes a lareira no peito. Será que ele repara que estou desorientada, que nem consigo pensar em que armário arrumei os copos? Porque é que estou a falar comigo e não com ele?
Não tinha reparado que estava mesmo atrás de mim, sereno, como se fosse capaz de ouvir tudo o que o meu pequeno nervosismo me fazia pensar. Assustei-me e senti o meu coração a disparar, senti um pequeno choque quando me tocou no ombro. Consigo ouvir a sua respiração bem perto do meu ouvido, consigo sentir os seus cabelos a tocar na minha pele, consigo senti-lo, frio.
- Assustaste-te? Só queria saber se precisavas de ajuda.
- Ah os copos, sim, estão aqui.
- Estás tão quente. Sentes-te bem?
- Sim sim... O trabalho, vamos começar?
Não olhei para o relógio durante toda a tarde, talvez tenha sido por isso que me espantei quando já era noite, lá fora. Existia uma ligação naquela sala que eu queria, por força, desligar. Como é que desligo os seus olhos, que me conseguem dizer tudo? Como é que desligo o seu eu que encaixa no meu como um simples puzzle? Como é que me desligo?
- Acho que acabámos, my dear Sophie.
- Sim e já olhaste para o relógio? Passa das 10 e o meu estômago está a pedir comida. Ahm... Jantas comigo?
- Janto, e ajudo-te a fazer o jantar para não te desorientares.
Bolas, ele não é burro e provavelmente cozinha melhor que eu. Passei a tarde a querer desligar tudo, mas e se... se eu agora deixar de pensar? Quero sentir aquele choque outra vez, quero saber o que é, de que é feito. Sim, eu quero senti-lo com todas as partículas do meu corpo. Shh, olha a comida Sofia, bastou ele se afastar para te esqueceres que estavas a cozinhar. Já cheira a queimado, será que ele repara?
Oh não, outra vez. Senti o seu peito nas minhas costas, senti-o debruçar-se sobre mim, provavelmente para ver a porcaria que eu tinha feito. Não calma... está a abraçar-me.
- Como consegues estar tão quente? - Sussurrou.
- Talvez porque... tu pões-me assim.
- Eu? Sempre que te toco encolhes-te, não te posso dar calor.
- Podes sim, põe aqui a tua mão.
Coloquei a sua mão sobre o meu pequeno coração. É o frio que o faz bater tão rápido, que atiça a fogueira.
- Calma, põe a tua mão no meu também. Estás a senti-lo a bater depressa? É igual ao teu.
- Talvez sejam um.

13.12.09

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Não olhes para mim assim, estás muito frio. Confesso que não quero que te afastes. Quero disfarçar, mas os meus olhos não te conseguem mentir, não.

A minha verdade é quente, porque haverias de fugir dela?
E afinal, quando é que o frio e o calor se encontram?

5.12.09

Take a look in the mirror

Tenho tanto medo de ti, da tua imagem e que me apareças à frente, que estou a tornar-me igual a ti, em todos os aspectos. Talvez sempre fomos iguais, fomos um, o nós. Não sei. Tenho acordado durante os sonhos com uma dor de cabeça horrível. Não cabes aqui, não vale a pena tentar, não há espaço, por mais que eu queira. Tenho medo de ir dormir e de acordar contigo a arrombar a minha porta.

1.12.09

É para ti.

- Está frio hoje, os cobertores não me aquecem. Será que já pus o despertador na hora certa? Sim, fiz isso antes de me deitar. Falta-me qualquer coisa... Talvez sejam coisas da minha cabeça. Vá, dorme.
Devia ter trazido um copo de água, tenho a garganta seca. Hoje não tenho nenhuma melodia que me faça adormecer, não tenho nenhum sítio para viajar e conhecer. Shh... Acho que quando não sei o lado bom de uma situação faço tudo ao contrário. Violo as minhas regras, o que acredito. Não dou oportunidade da flor crescer, não a rego. Mas isso não faz sentido... Já não vale a pena pintar o que é cinzento de branco. É tarde, tenho que dormir.
- Anda, deita-te aqui comigo.
- Eu? Eu não quero.
- Porquê?
- Sei que essa pessoa não és tu, prefiro ficar aqui quieta. Por isso não, não quero.
- Sou eu, sim. Quem achas que sou, quem poderei ser?
- És um pedaço do fantasma, uma linha do seu desenho na minha cabeça, és o que resta dele em mim. Uma das vozes de quem eu quero ouvir, és o meu eu a falar comigo para me acalmar. O vício que me está a fazer dar voltas na cama, que me tira o sono. Sei que quando acordar vou dizer que te odeio e ao fim do dia a única coisa que vou querer é ter-te comigo. Mas não te quero assim, não te conheci assim, quero apagar a linha, destruir o rasto. Dói e estou farta que doa, estou pronta a arrancar-te à força. Não tenho paciência já. Boa noite. E dorme, Sofia.