- Está frio hoje, os cobertores não me aquecem. Será que já pus o despertador na hora certa? Sim, fiz isso antes de me deitar. Falta-me qualquer coisa... Talvez sejam coisas da minha cabeça. Vá, dorme.
Devia ter trazido um copo de água, tenho a garganta seca. Hoje não tenho nenhuma melodia que me faça adormecer, não tenho nenhum sítio para viajar e conhecer. Shh... Acho que quando não sei o lado bom de uma situação faço tudo ao contrário. Violo as minhas regras, o que acredito. Não dou oportunidade da flor crescer, não a rego. Mas isso não faz sentido... Já não vale a pena pintar o que é cinzento de branco. É tarde, tenho que dormir.
- Anda, deita-te aqui comigo.
- Eu? Eu não quero.
- Porquê?
- Sei que essa pessoa não és tu, prefiro ficar aqui quieta. Por isso não, não quero.
- Sou eu, sim. Quem achas que sou, quem poderei ser?
- És um pedaço do fantasma, uma linha do seu desenho na minha cabeça, és o que resta dele em mim. Uma das vozes de quem eu quero ouvir, és o meu eu a falar comigo para me acalmar. O vício que me está a fazer dar voltas na cama, que me tira o sono. Sei que quando acordar vou dizer que te odeio e ao fim do dia a única coisa que vou querer é ter-te comigo. Mas não te quero assim, não te conheci assim, quero apagar a linha, destruir o rasto. Dói e estou farta que doa, estou pronta a arrancar-te à força. Não tenho paciência já. Boa noite. E dorme, Sofia.