Não sei porque lhe sugeri fazermos o trabalho em minha casa, estou a pôr a minha zona de conforto em descoberto. Ele. Podíamos ter ficado numa Biblioteca ou num Café mais calmo. Calmo... isso, acalma-te e finge que não sentes a lareira no peito. Será que ele repara que estou desorientada, que nem consigo pensar em que armário arrumei os copos? Porque é que estou a falar comigo e não com ele?
Não tinha reparado que estava mesmo atrás de mim, sereno, como se fosse capaz de ouvir tudo o que o meu pequeno nervosismo me fazia pensar. Assustei-me e senti o meu coração a disparar, senti um pequeno choque quando me tocou no ombro. Consigo ouvir a sua respiração bem perto do meu ouvido, consigo sentir os seus cabelos a tocar na minha pele, consigo senti-lo, frio.
- Assustaste-te? Só queria saber se precisavas de ajuda.
- Ah os copos, sim, estão aqui.
- Estás tão quente. Sentes-te bem?
- Sim sim... O trabalho, vamos começar?
Não olhei para o relógio durante toda a tarde, talvez tenha sido por isso que me espantei quando já era noite, lá fora. Existia uma ligação naquela sala que eu queria, por força, desligar. Como é que desligo os seus olhos, que me conseguem dizer tudo? Como é que desligo o seu eu que encaixa no meu como um simples puzzle? Como é que me desligo?
- Acho que acabámos, my dear Sophie.
- Sim e já olhaste para o relógio? Passa das 10 e o meu estômago está a pedir comida. Ahm... Jantas comigo?
- Janto, e ajudo-te a fazer o jantar para não te desorientares.
Bolas, ele não é burro e provavelmente cozinha melhor que eu. Passei a tarde a querer desligar tudo, mas e se... se eu agora deixar de pensar? Quero sentir aquele choque outra vez, quero saber o que é, de que é feito. Sim, eu quero senti-lo com todas as partículas do meu corpo. Shh, olha a comida Sofia, bastou ele se afastar para te esqueceres que estavas a cozinhar. Já cheira a queimado, será que ele repara?
Oh não, outra vez. Senti o seu peito nas minhas costas, senti-o debruçar-se sobre mim, provavelmente para ver a porcaria que eu tinha feito. Não calma... está a abraçar-me.
- Como consegues estar tão quente? - Sussurrou.
- Talvez porque... tu pões-me assim.
- Eu? Sempre que te toco encolhes-te, não te posso dar calor.
- Podes sim, põe aqui a tua mão.
Coloquei a sua mão sobre o meu pequeno coração. É o frio que o faz bater tão rápido, que atiça a fogueira.
- Calma, põe a tua mão no meu também. Estás a senti-lo a bater depressa? É igual ao teu.
- Talvez sejam um.